Será muita loucura começar um blog citando Elizabeth Eisenstein e seu A Revolução da Cultura Impressa? É que a idéia me veio à cabeça por esses dias, enquanto alguns blogueiros da esfera internética brasileira reclamavam (pra variar) da urgente necessidade de relevância no conteúdo dos posts de seus peers. Não discordo; penso que eles têm razão em reclamar –a dita blogosfera, se não autofágica, é sua principal consumidora por estas bandas brasileiras. Mas também penso que a falta de conteúdo relevante faz parte de uma cultura anterior à cibernética, muito bem interpretada por McLuhan e posteriormente por Eisenstein. A culpa é, na verdade, de Gutenberg!

Eisenstein lembra que, para além da revolução do conhecimento, o advento da prensa trouxe algumas conseqüências miseráveis. Não houve disseminação imediata de informações e conhecimento –houve, de fato, a consolidação da cultura dominante da época. Os que tiveram o gosto de viver no apagar das luzes da Idade Média tiveram contato com algo semelhante ao primeiro processo de massificação da cultura, com a bem-sucedida distribuição de literaturas charlatãs e obras pseudo-científicas (com todas as estranhas implicações do termo ‘ciência’ à epoca) a qualquer um com habilidade de virar páginas. A grande sacada dos donos dos meios de publicação foi alimentar o processo criativo de acordo com um público-alvo secularmente acostumado a uma cultura visual ligada às superstições e à crendice.

Demorou muito tempo até que a supremacia da autoria individual fosse reconhecida, no Renascimento. Mesmo assim, o que se observava era a prevalência de referências ao status quo –uma espécie de subversão dos instrumentos revolucionários a quem tinha o poder da ideologia e da religião nas mãos. E ai de quem fosse contra o fluxo, né, Galileu?

Não que Gutenberg tivesse previsto que suas máquinas fossem se tornar imediatamente subservientes à uniformização do discurso devido à lixeira informativa para a qual as prensas se prestaram. Mas a culpa é dele, vá.

Acho que foi Marx –sim, foi ele– que afirmou, um século antes da preponderância desse ciberativismo, que a sociedade funciona a partir da evolução tecnológica, recaindo invariavelmente sob o domínio das máquinas. Tudo isso me faz pensar que mudanças paradigmáticas não acompanham o ritmo de apropriação de novas tecnologias, pois agora os produtores de informação se permitem donos dos meios de publicação e, se não são tão afeiçoados a mudanças bruscas no cotidiano, são bastante apegados ao modo como o outro faz uso das ferramentas tecnológicas.

O que eu quero dizer, em bom português, é que a discussão de como o outro faz uso do meio internet será eternamente controversa, porque cada um é dono de seu próprio veículo, mas compartilha espaço com o veículo de outrem. A percepção da falta de conteúdo e sua própria existência se torna uma particularidade sadia do meio, porque mostra que a coletividade é potencialmente detentora do meio produtivo, não se tornando escrava da tecnologia e de uma ideologia preponderante qualquer. A partir do momento que isso se dissipar, tenhamos medo de cair numa neblina elitizada do discurso mais uma vez.

Isso até a lógica do mercado inventar uma maneira mais extensa de usar AdSenses para vender a liberdade da galera a US$ 0,01 de vez.

Bem-vindos ao blog.