Em campanha, Barack Obama cresceu com o apoio de usuários do MySpace. Do outro lado, Hillary Clinton tem assessores para atualizar várias vezes ao dia seu Twitter. O primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, usa Twitter e Flickr. A ministra de Zapatero, a espanhola Bibiana Aído, tem blog, canal no YouTube, Twitter e Flickr. Política 2.0? Não. Apenas uma nova forma de se aproximar e prestar contas ao eleitorado.

Já em terras tupiniquins, desde as eleições presidenciais 2006, acompanha-se uma crescente mobilização política através de ferramentas de relacionamento, tendo o Orkut, evidentemente, como centro da discussão. Como já apontava Sérgio Amadeu da Silveira no livro de Venício A. de Lima, A mídia nas eleições de 2006, foram os usuários dessa rede social que, se não formularam debates relevantes, desenvolveram instrumentos de opinião marcadamente apaixonados. Foi a partir de seu uso que vídeos de cunho político repercutiram no YouTube –como aquele da entrevista de Alckmin à rede BBC– e que os políticos começaram a levar em consideração a opinião dos ‘e-leitores’ bem como a influência que eles exercem junto à opinião pública.

Passada a festa da democracia, amenizaram-se também os ânimos. Embora muitos políticos mantenham sites onde expõem projetos políticos e agenda de compromissos, são poucos os que permanecem ativos, prestando contas aos seus eleitores e aos interessados em seus projetos. Aos moldes de Bibiana Aído e Gordon Brown, então, temos um verdadeiro vácuo representativo. Dentre os que dei uma fuxicada, somente o blog do Fernando Gabeira, deputado federal pré-candidato à prefeitura do Rio e queridinho da direita (prontofalei) progressista blogosférica, apresenta uma vertente mais propositiva. Ali, o deputado oferece pequenas pílulas opinativas sobre assuntos de interesse público, como uso da internet nas campanhas eleitorais, união civil de homossexuais e proteção ambiental.

Pertinente lembrar que, no entanto, Gabeira compõe a ala oposicionista do Congresso Federal, experiência essa que, se inaugura debates, dificilmente os viabiliza politicamente num curto ou médio prazo.

Outro que ainda está no poder e usa a internet ativamente é o atual prefeito carioca com seu ex-blog. Tenho particular dificuldade em considerar César Maia como um político 2.0, porque newsletters não são exatamente das ferramentas digitais as mais informativas, tampouco se situam no plano das atualidades como projetos inovadores de comunicação. Também duvido que, a essa altura do campeonato, ao fim de um segundo mandato melancólico, César Maia tenha interesse em criar um fórum ativo de debates políticos. Mas a intenção de usar e estar na rede prevalece.

Um exemplo relevante de sub-aproveitamento das ferramentas interativas da internet é o blog do senador Cristovam Buarque. De visualização precária, é usado como uma espécie de clipping do que sai publicado em jornais e revistas, sem espaço para comentários. Suas forças são concentradas em seu site –uma verdadeira fábrica de notícias no formato mais tradicional possível relativas ao seu projeto político.

O que achei mais interessante nessa breve análise, no entanto, é que, entre os desprovidos de mandato, José Dirceu e Roberto Jefferson aparecem como destaques de audiência e repercussão. É no mínimo intrigante perceber que a pouca credibilidade política que restou a ambos autoriza seus discursos e os colocam na crista da onda toda vez que surge um escândalo novo ou um fato político relevante. São muito mais fomentadores de discussões e propositores de projetos políticos do que Gabeiras da vida, o que possivelmente explica a dificuldade que as autoridades têm em se expôr de forma plena na internet. Também mostra que a internet surge como um meio de sobrevivência política dos órfãos da máquina pública, assim como dá idéia de quão articulados politicamente eles permanecem.

Não sei exatamente se algum dia o Planalto delegará a uma equipe a responsabilidade de administrar um site interativo, um blog propositivo ou mesmo um perfil no Twitter. Pouco se sabe até que ponto a exposição de figuras e instituições políticas na internet contribui de fato para o desenvolvimento concreto de projetos políticos. Mas seria bacana saber se as equipes de Comunicação das várias esferas de poder consideram ao menos uma idéia interessante abrir esse espaço de aproximação virtual com os setores conectados da sociedade.