A excelente matéria do Azenha, na CartaCapital desta semana (que já é semana passada, aliás), chama atenção para detalhes que poucos já perceberam com relação à já enunciada sobrecarga na transmissão de dados pela internet. Empresas telefônicas e de TV a cabo que polarizam o setor de acesso à rede poderiam se aproveitar de uma chamada indústria da fila. Explico.

Segundo a reportagem, nos Estados Unidos, as parcerias público-privadas estão se aproveitando do colapso do atendimento à população para criar estratégias diferenciadas de serviço. Nos aeroportos, empresas privadas cobram para tirar passageiros das intermináveis filas de entrada no país. Algumas auto-estradas, entupidas de carros em engarrafamentos cada vez mais colossais, agora dedicam faixas exclusivas para quem pagar o preço de não querer ficar parado. O medo é que, com a sobrecarga das redes de transmissão que permitem acesso à internet, as teles norte-americanas adotem estratégia semelhante.

Os proponentes da neutralidade dizem que a discriminação de conteúdo na internet poderia ter sérias implicações sociais. “Vozes independentes e grupos políticos são especialmente vulneráveis”, anota o grupo Salve a Internet. “O custo para transmitir áudio poderia disparar, silenciando blogueiros e amplificando o poder das corporações de mídia. A organização política poderia ser freada por um punhado de provedores de internet, que exigiriam de candidatos e entidades o pagamento de taxas para usar a faixa rápida”.

Seria essa a perspectiva que se tem no Brasil com a entrada definitiva da classe C na internet? Com uma Anatel omissa ao lobby das empresas de telecomunicações, a desconfiança é grande. A possibilidade de reversão de qualquer política monopolista, no país, é precária, e nós temos exemplos bastante claros disso. A reação de parcela da sociedade diante de um processo de total colapso, porém, será implacável: aqueles mesmos liberais que justificam até hoje a privatização das teles como a salva-guarda da ampliação do acesso à tecnologia se voltarão ao Estado pedindo prestação de contas pelo que outrora defenderam.

Qual o estado do Estado, meus caros? Os donos da internet é que mantêm este latifúndio.