A excelente matéria do Azenha, na CartaCapital desta semana (que já é semana passada, aliás), chama atenção para detalhes que poucos já perceberam com relação à já enunciada sobrecarga na transmissão de dados pela internet. Empresas telefônicas e de TV a cabo que polarizam o setor de acesso à rede poderiam se aproveitar de uma chamada indústria da fila. Explico.
Segundo a reportagem, nos Estados Unidos, as parcerias público-privadas estão se aproveitando do colapso do atendimento à população para criar estratégias diferenciadas de serviço. Nos aeroportos, empresas privadas cobram para tirar passageiros das intermináveis filas de entrada no país. Algumas auto-estradas, entupidas de carros em engarrafamentos cada vez mais colossais, agora dedicam faixas exclusivas para quem pagar o preço de não querer ficar parado. O medo é que, com a sobrecarga das redes de transmissão que permitem acesso à internet, as teles norte-americanas adotem estratégia semelhante.
Os proponentes da neutralidade dizem que a discriminação de conteúdo na internet poderia ter sérias implicações sociais. “Vozes independentes e grupos políticos são especialmente vulneráveis”, anota o grupo Salve a Internet. “O custo para transmitir áudio poderia disparar, silenciando blogueiros e amplificando o poder das corporações de mídia. A organização política poderia ser freada por um punhado de provedores de internet, que exigiriam de candidatos e entidades o pagamento de taxas para usar a faixa rápida”.
Seria essa a perspectiva que se tem no Brasil com a entrada definitiva da classe C na internet? Com uma Anatel omissa ao lobby das empresas de telecomunicações, a desconfiança é grande. A possibilidade de reversão de qualquer política monopolista, no país, é precária, e nós temos exemplos bastante claros disso. A reação de parcela da sociedade diante de um processo de total colapso, porém, será implacável: aqueles mesmos liberais que justificam até hoje a privatização das teles como a salva-guarda da ampliação do acesso à tecnologia se voltarão ao Estado pedindo prestação de contas pelo que outrora defenderam.
Qual o estado do Estado, meus caros? Os donos da internet é que mantêm este latifúndio.






#1 - May 24, 2008 at 12:32 pm
tal operaçao gargalo me preocupa nao é de hj. aconselho uma lida em “os donos da rede - as tramas politicas da internet”, de pierre mounier.
#2 - May 26, 2008 at 12:02 pm
A gente nota que um setor é inovador qdo tem visões desse tipo. Se não há problema, cria-se um para, em seguida, vender uma solução a preço de ouro. Como nunca ninguém pensou nisso? Ah… estão me dizendo q alguém já tinha pensado nisso… era década de 30 e era em Chicago.
Mas, sabe o que me irrita. É q isso é discutido nos EUA e lá tem uma população de +300 milhões e 80% disso é conectada, a quase totalidade em banda larga. Aqui, o perigo se avizinha com 20 milhões de pessoas on-line e a expectativa de um boom para 40 milões em um ano e pouco.
Essa estratégia que deixa exposta a alma bondosa dessas empresas já pode surgir só com 20% da população on-line… boa parte com conexão discada.
#3 - May 27, 2008 at 06:12 pm
Essa questão preocupa - e o pior é que ela já existe, de forma invisível. Muitos migramos para a banda larga fugindo das “vias engarrafadas” da Internet discada, que caía, era lenta e ruim. Com a popularização, a tendência é que se invente outra coisa pra fazer todos gastarmos nosso dinheiro de novo. Criando outra dificuldade pra vender outra facilidade.
Mas não esqueçamos das alternativas - já se fala em Ultra Banda Larga (50 MB/s) e em internet à rádio. Essas alternativas podem desafogar a net discada e a banda larga atual, evitando “congestionamentos”.