Minha avaliação da entrevista da Dilma é positiva –tanto para ela, que soube explorar bem o espaço dado pelo programa com (pelo menos aparente) consistência; quanto para os blogs de política, que tiveram assunto além das peripécias de Carlos Minc e da CPI dos Cartões Corporativos. Mas é lógico que a entrevista da Ministra da Casa Civil, ainda às voltas com um cachorro morto chamado dossiê (ou banco de dados, como preferir), daria o que falar. E deu, de fato. E ainda dará.

O blog do Noblat repercutiu de forma “discreta” a entrevista, mostrando uma sutil ilustração:

Já no blog do Reinaldo Azevedo, a entrevista rendeu um longo post (não achei permalink), com direito aos arroubos de raiva famosos do colunista de Veja. Azevedo enumerou uma seqüência de –palavra dele– mentiras. Mentiu que conheceu Carlos Minc na VAR-Palmares, que não participou do roubo do cofre de Adhemar de Barros, que conheceu Carlos Lamarca, que investiu R$8 milhões nas obras do PAC –e que, novamente, não tinha conhecimento sobre o banco de dados.

Guilherme Fiuza fez o achista a la Azevedo, falando que Dilma também mentiu mentiu mentiu por um laço de gratidão amarrado desde as salas de tortura do Doi-Codi. Ele, em um dos seus momentos mais sutis, afirma, referindo-se aos gastos não realizados pelo Governo no PAC:

A novidade é a ousadia da ministra. Prometer um número mágico já é arriscado. Anunciar que essa dinheirama já choveu sobre os brasileiros é contar demais com a sorte. Por enquanto, está tudo bem. O pessoal parece não ter estranhado, vai ver estava todo mundo hipnotizado pelo cenário do Jô.

À esquerda do destacamento, porém, reside a voz(?) solitária de Luís Nassif, em um post igualmente solitário que apenas linka seus leitores ao vídeo de parte da entrevista na Globo.com. A apreciação é encontrada nos comentários, com a manifestação de partidários, simpatizantes e céticos com relação ao discurso da ministra. Um comentarista interessante, que atende por Marcelo, pontua o contexto político da seguinte forma:

Apesar de ser eleitor declarado da futura candidata, não concordo com a opinião dos meus colegas aqui do blog…

Achei que a ministra levou a entrevista pra um lado muito chato ao grande público.

Acho que como o programa era entretenimento, ela deveria ter dançado mais “conforme a música” e se mostrado mais solta, falando mais de sua história de vida, de coisas da intimidade, aproximando o potencial eleitor de sua história.

A entrevista “tecnicista” apresentada continua a deixando distante dos eleitores, e ela precisa quebrar essa barreira para deixar de ser a mãe de uma sigla e se constituir como a “mãe dos pobres”

Só assim que se tornará competitiva.

(Nassif ficou de comentar posteriormente a entrevista, já que não tinha visto o programa até o início da tarde desta terça-feira. Assim que ele soltar seus post, dou um update aqui.)

Sim, o que é pertinente é que a pré-candidatura de Dilma foi de fato lançada no programa de ontem, Reinaldo gostando ou não. Embora ainda falte estrada para que a ministra apareça de fato como uma figura política carismática, alea jacta est, como diria César. Qualquer tropeção pode ser fatal, portanto, pois se Lula é um deus blindado pela popularidade, Dilma só por milagre chegará a Jesus.

Agora, a eventual possível pré-candidata à sucessão de Lula demonstrou profundo conhecimento sobre os argumentos por trás das obras do PAC, mas certamente não convenceu alguns dos jornalistas ao mostrar desconhecimento sobre a origem e a finalidade do dossiê. Não creio que se possa dizer que ela certamente saiba de fato verdadeiramente o que ocorreu dentro dos seus domínios, mas uma senhora com tanto conhecimento acumulado sobre nomes, fatos e história política, de acordo com grande parte dos (ditos) formadores de opinião, não poderia ignorar tal acontecimento.

O que mais me chama atenção, no entanto, é pensar nas pesquisas que se delineiam aos pouquinhos no horizonte de 2010. Se a candidatura de José Serra for viabilizada, não teremos apenas dois partidos partidos –um pela fragmentação política paulista, outro pela impossibilidade ideológica em um governo de coalizão. Teremos, sim, um embate entre a carrancuda e o mal humorado, em um país de que –vá lá– ainda tá difícil rir.

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Quem não viu, ainda tem a chance de ver: