A última aula do curso “Opinião Pública, Mídia e Estratégias de Comunicação Política” do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), no último sábado, somada a algumas considerações que ando pescando por aí, abre um verdadeiro vácuo na minha opinião sobre as eleições municipais deste ano. A mesa de debates do curso, composta por Karina Kushnir*, Alessandra Aldé** e Marcus Figueiredo***, embora esclarecedora, mostrou que, diferentemente de São Paulo, onde as eleições já estão pegando fogo (incluindo na receita liminares intrapartidárias, denúncias de corrupção tucanas, sobrevivência política do DEM), o Rio de Janeiro está fadado a debates políticos de inédita superficialidade. Estão no páreo pré-candidatos cujas propostas de governo permanecem pragmática, ideológica e assustadoramente indefinidas, diferentemente das polarizações partidárias anteriores à herança brizolista.

Em pesquisa publicada na semana passada no site do jornal O Dia, o senador Marcelo Crivella (PRB) aparece na frente com 27,6% das intenções de voto, seguido de Jandira Feghali (PCdoB) com 15,7%, Fernando Gabeira (PV-PSDB-PPS) com 14%, Solange Amaral (DEM) com 8,2%, Chico Alencar (PSol) com 7,3% e Alessandro Molon (PT) com 2,9%. A única pré-candidatura a bater Crivella num possível segundo turno seria a de Jandira Feghali, com 40,4% contra 35,8% do senador.

No entanto, a pesquisa não previa o que já se arrastava há pelo menos quinze dias nos bastidores. A notícia de que Alessandro Molon (PT) não comporia mais a cabeça da megachapa PT-PMDB resultou, hoje, na esperada pré-(re)candidatura de Eduardo Paes (PMDB), o ex-secretário sem consenso. Rumores indicam que sua candidatura seria mais um desafio à já fragmentada bancada do PMDB, que teria de comprar briga nas bases fortes de Crivella, situadas nas zonas Norte e Oeste, assim como no território conservador Tijuca-Copacabana de Solange Amaral, e da elite modernosa Zona Sul de Fernando Gabeira.

Tudo bem que ainda é cedo para ter como certo qualquer panorama, mas, levando em consideração que Gabeira e Crivella têm índices altos de rejeição, qualquer dos candidatos que souberem correr por fora aparecem com chances reais de levar a disputa ao segundo turno.

Foi diante desse cenário que Karina Kushnir chamou atenção para a candidata da máquina da prefeitura. Segundo ela, César Maia trabalhou forte na conservação de uma base aliada consistente, que com certeza trabalharia duro na penetração do nome de Solange, principalmente na Zona Norte. Com suas pretensões de levar a deputada aos corredores da Cidade Nova e usá-la como principal apoio na corrida ao Senado em 2010, Maia, uma das mais experientes raposas políticas do país, não pode ser ignorado.

A mesa do Iuperj também ponderou sobre a quietude em que se encontra Garotinho. Ligando os pontos, é possível que trabalhe contra a candidatura de Eduardo Paes, mesmo que apareçam juntos no mesmo partido. Não se sabe, entretanto, o quanto isso é bom ou ruim para a velha nova opção do PMDB, dadas as circunstâncias de envolvimento do ex-governador no esquema de Álvaro Lins e das milícias do Rio. De todo modo, é uma figura política influente entre os candidatos à Câmara Municipal, que poderiam trabalhar para minar sua força no subúrbio em definitivo.

Jandira Feghali, por sua vez, gostaria de ver sua campanha distante da difamação arquitetada por Francisco Dornelles (PP) e a Igreja Católica na corrida pelo Senado em 2006. Uma eleição que parecia ganha foi minada de véspera por boatos, folhetos e mensagens SMS que associavam Jandira ao movimento pró-aborto. Na antevéspera do pleito, Jandira teve de ir a público declarar que não é favorável a essa prática. Nos grotões do estado, porém, o estrago já estava feito.

De todo modo, a esperança de alguns órfãos da esquerda carioca é uma chapa composta por Jandira como cabeça e Molon como vice, que, num eventual segundo turno, ainda conseguiria aproximar simpatizantes de Cabral. A figura do deputado petista, bastante associada à Igreja Católica, seria decisiva para diminuir o muxoxo contra a candidata. Lideranças do PT, no entanto, dizem não. Com pouco tempo de TV para ambos, os partidos apelam para a militância e para a penetração popular, já que ambos os candidatos são notoriamente mais acostumados a entrar em favela e a dialogar com líderes comunitários do que Gabeiras e Cabrais da vida.

Outro importante fator a ser avaliado é a declaração de Lula na última segunda-feira. Ele disse que não pretende subir em palanques ou fazer propaganda em municípios onde sua base aliada lançará candidatos concorrentes. Tampouco Cabral se mostra simpático a Crivella, preferindo independência em um segundo turno entre Solange e o senador. Pois então… será que a figura controversa de Crivella se ajustaria sem o apoio público do presidente e do governador? Da mesma maneira, será que Gabeira conseguiria se consolidar como concorrente à altura sob o estigma de sua bancada ser aliada a César Maia?

Conforme Alessandra Aldé lamentou na aula final do curso, são muitas perguntas para pouco espaço de debate. Com o fim da publicidade de rua, o espaço de discussão ficou restrito à televisão e aos comícios. Não que quem tiver o maior tempo de propaganda eleitoral vá levar o pleito. O que fica claro, na verdade, é que, com tantas opções, fica difícil debater efetivamente os problemas da cidade. Não há ninguém para carregar consigo a bandeira da saúde, da educação, do transporte e, principalmente, da segurança pública, porque não há tempo nem espaço para criar forças políticas combativas. As eleições, dessa forma, além de inaugurarem uma nova fase política na cidade, podem também produzir novas estratégias sobre como construir forças políticas em um meio de inédita conflagração.

.

*cientista política, antropóloga social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisadora associada do Iuperj

**cientista política, professora de Comunicação Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e pesquisadora associada do Iuperj

***cientista político, professor e pesquisador do Iuperj