Conheço inúmeros entusiastas da internet e consigo concordar com todos os motivos que eles têm para adorar essa mídia. É inovadora, livre, democrática, dinâmica, participativa, respeitadora de diferenças. Com os mesmos olhos brilhantes de orgulho, porém, meus amigos tecnófilos regozijam-se por terem abandonado o velho hábito de ler jornal impresso, como se blogs e sites de notícias os tivessem liberto das algemas maldosas da mídia tradicional. Segundo eles, jornal não tem feed; jornal não tem ctrl+f; jornal não abre abas no Firefox; jornal suja os dedos; jornal empacota peixe; jornal é o banheiro do meu cachorro, do meu gato, do meu papagaio; jornal é feito por jornalistas, para jornalistas, mas não é de jornalistas.
Perdem eles, perdem os jornais.
Tem uma frase do Elio Gaspari que acho sensacional –é algo parecido com “Como exigir credibilidade de um pedaço de papel barato vendido em qualquer esquina a três reais?”. De fato, credibilidade é algo que não se compra; não é dom; não se vende na farmácia; não se esquenta no microondas; não se baixa pela internet. Credibilidade, para muitos, passa ao largo da tentativa de blindagem ideológica dos jornalões, ou da partidarização excessiva de alguns sítios na internet. Credibilidade é um termo que profissionais cunharam para dar novo status ao seu ethos e ganhar o carinho da opinião pública. Credibilidade caiu em descrédito, em rota semelhante à visibilidade dos impressos.
Na base do achismo e do flaneurismo, acredito que um dos motivos mais visíveis para a fuga dos leitores para a internet certamente diz respeito à necessidade de se ver representado –sim, muito mais do que simplesmente saber das últimas notícias. O que dá crédito à mídia internética é a interlocução honesta com o usuário, seja através de editoriais, seja através de publicidade. O leitor cansou de ler editoriais sem assinatura dirigidos a um grupo de indivíduos sem face; de não entender o motivo de sentir obrigado à vontade de comprar um imóvel de sete dígitos com o bolso quatro dinheiros mais pobre.
Mas o jornal comunica e comunicará, mesmo que derradeiro seu formato noticioso. Não sei se é papel dos jornais ser isento ou partidário, uma vez que o papel da informação pela ideologia já é cumprido pela internet. A mudança, no entanto, é certeza, e já desponta no horizonte em alguns países midiaticamente mais desenvolvidos.
Enquanto que na Europa e nos EUA há crescimento na circulação de jornais impressos gratuitos, creio que a tendência é torná-lo um espaço raro de pluralidade de opinião, dado o caráter colaborativo desse tipo de publicação.
Para ser economicamente viável, o jornal gratuito há de ser cooperativado. Para não concorrer com a internet, há de ser plural. Se na internet o leitor seleciona o indivíduo e a ideologia que lê, o jornal daria as diferentes visões do grupo. Ou seja, ele mantém a cartilha do rigor jornalístico, do equilíbrio entre dois ou mais discursos distintos –aquela história que nós jornalistas bem conhecemos–, mas é construído por um grupo com diferentes cabeças e diferentes pensamentos, de maneira profissional, com uma estrutura viabilizada apenas por esse tipo de mídia.
Seria uma espécie de contraponto com a internet; um meio através do qual os leitores teriam acesso às diferenças, enquanto que a web os conecta às afinidades.
Aliás, preciso dizer que ainda sou leitora de jornais e devo permanecer dessa maneira durante um bom tempo. Mesmo com todos os problemas que a mídia impressa brasileira possui. Leio as últimas notícias pelos principais portais de informação dinâmica, leio as análises nos blogs de minha preferência, mas o jornal do dia seguinte, aquele que aparece todo dia atrás da porta, ainda é singular. Se o modelo vem a falir, o formato, jamais. O intervalo entre uma edição e outra pode agudizar a ansiedade dos desesperados. Mas eu gosto dessa tentativa quase romântica de pluralidade de informações mastigada com o café-da-manhã, porque análise em cima dos fatos e análise do dia seguinte são tão diferentes quanto vinagre e vinho.






#1 - June 18, 2008 at 02:29 am
ah, mas que bela reflexão, sim.
eu não gostaria de perder o jornal. ler na mão, orgânico, com pausas, folhear, aproximar o rosto pra ver detalhe de foto, todo esse ritual - é bom, é terapêutico, é pelo menos uma horinha longe da tela do computador, fato cada vez mais raro.
e também o jornal do dia representa um universo controlável de informação… o - talvez ilusório, mas eu também sou fanático por futebol - conforto de saber que alguém separou o que havia de importante para que eu lesse, ao invés do exercício de apnéia que é mergulhar na informação da web. [não esquecendo postura crítica para ler, procurar outras fontes etc]
eu acredito que, à medida em que a internet vai se organizando, e as novas bases dessa informação mais ’selvagem’ são compreendidas, os jornais tendem a se fortalecer. vão achar seus nichos e as maneiras mais corretas de cativar o leitor nessa nova configuração. os teus palpites são promissores. o abalo na “credibilidade” só é visto com maus olhos por quem é muito corporativista.
é um longo caminho, e vai ser preciso explodir algumas montanhas, mas - lá vou eu com meu mantra - quando um “técnico em comunicação” dá lugar a um comunicólogo que atua em determinada área da comunicação, se encontram posts como esse. ao invés de negar, lutar contra, desmerecer ou rejeitar a informação e a notícia na internet, como tanto se vê, o que se percebe é um novo e positivo panorama para a Comunicação. (oooh. :))
#2 - June 20, 2008 at 12:31 am
Muito boa análise, sucinta, profunda e inteligente. É isso mesmo, sem tirar nem botar. Internet tá virando o local do factual, do acontecimento rápido, do agora. O jornal do dia seguinte é o contexto, análise, impacto daquele acontecimento na sociedade.
Em outra metáfora (horrível, mas quebra um galho), um tende a ser mais “parte”, e o outro, o “todo”. Surgirão também modelos híbridos, como jornais que tentam ser factuais e ágeis, e sites que procuram se aprofundar. Resta ver quais caminhos darão mais certo…
#3 - June 20, 2008 at 12:33 am
Achei uma metáfora melhor…um seria “a hora”, e o outro, “o dia” (sem trocadilhos com o jornal de mesmo nome). Acho que agora ficou mais claro.
#4 - June 25, 2008 at 02:22 pm
Inúmeras vezes eu tive vontade de fazer um comentário como este numa notícia de jornal. Mas, nos jornais tradicionais, elas são publicadas em dias posteriores em um local definido que a maioria dos leitores não dão atenção.
Enfim, não sou de comunicação , me falta técnica para me aprofundar no assunto, porém sou leitor assíduo de jornal impresso e de textos na internet. E é com pesar que acredito que as pessoas lêem jornais impressos atualmente muito mais por ser algo cultural do que pelo valor que tem mesmo.
Entendo que essa pluralidade de visões seja talvez o último dos nichos e é bem válido mas se o jornal impresso acabasse amanhã o mundo seguiria bem. Não posso falar o mesmo sobre a Internet.
#5 - July 1, 2008 at 07:35 pm
Eu achei bem interessante o texto. Ai vai o que eu acho:
Eu sou um dos leitores de jornal online. Embora, ache que pelo menos o ritual de ler o jornal de domingo eu devo manter. Pois, o jornal de domingo, em geral tem bastante materias atemporais. Dicas de viagem, colunas maneiras, etc. Tambem tem os comentarios do que rolou na semana, ou o que pode rolar na semana que esta’ comecando. Seria algo como uma revista semanal no formato de jornal. Para a noticia de ultima hora, eu acho que u fico mesmo com a internet.
Quanto ao jornal gratuito no exterior, eu devo adimitir que eu pego e leio mesmo quando estou no onibus, trem ouo metro. Mas e’ nitido que o nivel das materias e’ bem baixo, na vrdade o foco e’ outro. Eles comentam noticias de forma bem resumida e dao destaque a fofocas e curiosidades, extamente aquele tipo de coisa que voce nao iria perder tempo procurando na internet, por isso esses jornais estao ficando cada vez mais populares.
T+
#6 - July 19, 2008 at 07:51 pm
Gosto dos teus escritos…e esta análise foi ao encontro do que escreveu e escreve Pedro Doria sobre esta questão de jornal não ser de jornalista, de não ter assinatura em certas colunas, da falta de intimidade com ‘o quem escreve’. Quando visito teu blog, ou do Nassif, ou do Reinaldo, é como se estivesse os escutando. Afinal eu fui até onde vocês estavam…E sobre credibilidade tem a questão do tempo não!? É algo que não se alcança de um dia para outro.