Já adianto que não tenho opinião formada para introduzir à discussão. O título acima é meramente provocativo. Mas, como recém-formada em jornalismo e como observadora das discussões capitaneadas pelo Jorge Rocha em seu blog, e por diversas outras fontes de acordo com o debate reiniciado pelo Ministério do Trabalho, faz sentido comentar.

Por que não tenho opinião formada?, você me pergunta. Porque enxergo nuances. Considero que a exigência ou não de um diploma é um modo muito simplista de entender as relações entre empregado e empregador, entre rotina produtiva e qualidade editorial, entre status profissional e formação. A necessidade da discussão já dá a entender que qualquer uma das opções é incompleta em sua natureza e pressupõe de um entendimento profundo sobre as variadas rotinas profissionais inerentes à carreira –conhecimento esse que, venhamos e convenhamos, é nebuloso, já que estamos no meio de uma transição paradigmática brusca.

Acredito muito mais que esse tipo de discussão é fruto do descontentamento dos grandes grupos editoriais por justamente não saberem qual o futuro do Jornalismo ao moldes daquele que construíram. É como se eles tentassem montar as fundações de um prédio em terreno inadequado –a construção sempre desmoronará quando o segundo pavimento começar a ser erguido.

Do mesmo modo, com uma lógica corporativa profundamente hierarquizada, seus funcionários jamais produzirão informação com pensamento transformador –por que, afinal, transformar o jornal do patrão?

Assim, ficamos todos nós presos à futurologia do jornalismo, enquanto que as autoridades, algumas entidades de classe e as empresas de comunicação se furtam a fazer valer a mais nova determinação da última semana. Segue-se a isso, é com imenso receio que ouço os mais variados discursos sendo proferidos pelas mais variadas bocas na tentativa de sanar o problema dos problemas da profissão. É um sem número de frases feitas:

A exigência do diploma ainda tem força pois só assim é possível assegurar uma reserva de mercado por sua vez danosa à qualidade da produção jornalística.

Discordo. Não trabalhamos em uma profissão tipicamente meritocrática, em que a competência está acima de qualquer relação oficiosa. É claro que existem jornalistas competentes e que elevam o status da profissão a um nível excepcional. É claro que esse é um problema da imensa maioria das profissões liberais não-autônomas. Mas sempre é bom ter a certeza de que a lógica empresarial torna confiáveis apenas aqueles que estabelecem um pacto de confiança com o dono do veículo pela perpetuação da sua influência e do seu poder político. Desse modo, quem pode nos afirmar com certeza que é o diploma o culpado por todos os males?

A reserva de mercado é essencial para garantir dignidade a grande parcela dos trabalhadores.

Se assim fosse, ser jornalista não significaria sacrifício orçamentário ad eternum. Não digo que a profissão nos relega à insalubridade financeira de um retirante, mas é fato que o grau de qualificação de um jornalista, a começar pela imposição do mercado, custa bem caro. Herdeiros do achatamento econômico da década de 1990 como eu tiram do chopinho o dinheiro da internet banda larga, tiram da night de sábado o preço da assinatura da revista, e só não tiram livros da prateleira das livrarias porque ainda têm de se vestir para entrevistar as fontes. É bastante claro que a livre-iniciativa apregoada pelos arautos do (neo)liberalismo, além de demodé, é motivo de chacota de todos aqueles que rezam para o São Cheque Especial todo mês.

O jornalismo não se renova nas redações porque as faculdades de jornalismo não preparam seus alunos para o mercado.

Não formam mesmo. Mas quem disse que a função delas é atender aos interesses das grandes corporações? Sei que, na melhor das hipóteses, a graduação em Jornalismo –ou, vá lá, em Comunicação Social– serve apenas para empobrecer alguns otários e enriquecer poucos espertos. Tenho uma professora que diz, inclusive, que a graduação em Jornalismo, assim como grande parte das graduações, foi feita para provocar essa sensação de ignorância perpétua em seus alunos mais aplicados.

De todo modo, há uma distância muito grande entre criticar a má gestão dos currículos acadêmicos e enfraquecer a importância da pesquisa científica nessa área. A Academia é imprescindível para a formulação da crítica à imprensa, embora grande parte dos publishers permaneça em suas torres de marfim, desmerecendo qualquer pesquisa que postule entender os meandros do agendamento. Aliás, desnecessário lembrar que são nessas mesmas salas de aula e nesses mesmos laboratórios, dessas mesmas faculdades, que tomam forma importantes discussões sobre o papel da imprensa e o papel do jornalista, ainda que insuficientes. Não dá para tirar o mérito da vivência acadêmica focada em formar um especialista.

Os freqüentes desvios éticos ocorridos na imprensa dos diplomados ou dos não-diplomados apenas corroboram com o argumento de que rigor jornalístico pouco tem a ver com graduação em Jornalismo.

De fato. Faculdades de Jornalismo não imunizam suas crias das tentações que acompanham a liberdade de imprensa. Não são trezentos os picaretas com anel de doutor, como diria a música? Mas, então, qual seria o norte ético do profissional de imprensa sem diploma recém-chegado à redação? A ética do dono da empresa? A ética de cada uma das dezenas de entidades representativas dos profissionais de imprensa?

As faculdades de História, Ciências Sociais e Economia formam profissionais com melhor conteúdo que as faculdades de Comunicação.

A formação teórica de um comunicólogo é realmente uma piada. Na faculdade, disciplinas teóricas obrigatórias nada mais são que breves consultas enciclopédicas –informam, mas não instruem. Todavia, quem estudou em universidade pública como eu tem o privilégio de confabular cotidianamente com pesquisadores de background acadêmico invejável, principalmente se tiver iniciativa. Não que os bate-papos no corredor ou os anos de iniciação científica vão fazer diferença frente a uma centena de créditos teóricos. Creia, porém, que essa combinação pouco provável de mente acadêmica e rigor técnico pode ser o fiel da balança.

Agora, quem não estudou em faculdades onde pesquisa acadêmica é forte, não sei como fica a situação. Por mais que tentem me convencer de que os mais modernos laboratórios, as mais completas salas-de-aula e os mais populares professores dêem conta da formação que o mercado quer, sempre vai faltar o saudável e estimulante confrontamento de idéias inerente à formação teórica de excelência. E, se os veículos buscam na desregulamentação da profissão de jornalista a perspectiva de contratar profissionais de formação humanística completa e plural, certamente não vai ser no tecnicismo excessivo dessas faculdades que esperarão encontrar grandes talentos.

As faculdades de Comunicação Social são remanescentes da ditadura militar. Em regime democrático, não há razão de ser.

Reza a lenda que a criação das faculdades de Comunicação Social foi uma tentativa de amenizar o cenário de conflagração entre governo militar e movimento estudantil. A partir da premissa de que Jornalismo como curso isolado levaria um novo perfil profissional às redações, o governo convenientemente enxugaria as faculdades de Ciências Sociais e Economia, tradicionais redutos da esquerda e celeiros das redações de jornais e revistas combativos de então.

No fim das contas, o fato é que as faculdades cresceram e, a reboque, a profissionalização da imprensa. Tornaram-se muito importantes para a configuração do Jornalismo que temos hoje, seja por suas virtudes, seja por seus defeitos. Além disso, é sempre bom lembrar que as faculdade de Comunicação não englobam somente o ensino de Jornalismo, mas de outras profissões regulamentadas por lei cuja formação é absolutamente distinta.

Existem cursos de excelência para graduandos ou graduados interessados em jornalismo que habilitam diplomados em qualquer profissão a exercer a atividade jornalística de acordo com os rigores do mercado.

Existem, são excelentes e disputadíssimos. Entretanto, mesmo que somente os focas mais promissores estivessem entre os inscritos nesses programas, nem assim os grupos de mídia seriam capazes de absorvê-los todos. Ou seja, ainda haverá aquele excedente –não só vindos das faculdades de Jornalismo, mas das demais áreas– que necessariamente ficará chupando o dedo na ignorância do que é a rotina jornalística.

De qualquer modo, é o que mais se aproxima da minha idéia de formação jornalística ideal. Ideal, reafirmo. A faculdade de Jornalismo se transformaria em Ciências Sociais, com quatro anos de currículo teórico interessante à formação jornalística. Um sem-número de matérias eletivas, pesquisa científica obrigatória e trabalho de conclusão de curso que o habilitaria a migrar automaticamente como bacharel em Ciências Sociais em uma especialização de um a dois anos em Jornalismo. Já me disseram que é um modelo semelhante ao que ocorre na França, mas confesso que não sei.

Sei que a briga não pára. E que quem tem diploma ainda sai na frente, já que as estruturas empresariais dos nosso grupos de mídia não são subvertidas tão facilmente. No fim, fica o dito pelo não dito, pois, se Jornalismo é agenda, jornalista não é notícia.

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Leia mais sobre o assunto aqui, aqui e aqui (em inglês).

Update! N’O Jornalismo Morreu!, Jorge Rocha conspira mais um pouquinho sobre o assunto. Vale dar uma olhada.