Apesar de ser início de campanha e de os humores estarem pouco voltados às eleições, já dá para sentir algum burburinho pelas esquinas da cidade. No Rio, bom termômetro eleitoral é ouvir o cochichar nos pontos de táxi, o diálogo dos policiais em serviço e o bate-papo dos camelôs –todos eles bem informados e diretamente influenciados pela dinâmica das políticas municipais. São eleitores representativos das zonas Norte e Oeste, regiões que efetivamente decidem o resultado das eleições e que guiam a polarização e o voto útil da Zona Sul e da Grande Tijuca.

Pois bem. Foi bem por aí que as observações de três taxistas estacionados num ponto do Largo do Machado me puseram pensar.

Senhor 1: Como vou saber se o Eduardo Paes é candidato do Cabral, do César Maia ou do Lula? O cara já abraçou todo mundo!

Senhor 2: Se o cara é cria dos três, coisa boa não é.

Senhor 1: Então só resta votar na Jandira ou no pastor?

Senhor 3: É, mas o problema da Jandira é que ela é a favor do aborto, né?

Evangelização política? Não, não me refiro ao eleitorado do Crivella (PRB-PR-PSDC). Refiro-me ao fato de as pessoas –a maioria delas– formarem opinião a partir de seus semelhantes e quererem persuadi-los a votar no mesmo candidato. Pessoas reunem-se num coletivo conspirador sem sequer se darem conta. Lembram-me os marketeiros, que usam a fórmula para fazer estudo de caso. E é por isso que curto ouvir conversas sérias, mas de pouca (e sem pretensa) sofisticação. Dá para sacar o grau de politização do discurso dos candidatos pelo tipo de informação que seu eleitorado recebe.

Porém, não sei se pela mediocridade da cobertura jornalística de política municipal, não sei se pelas estratégias eleitorais, não sei se pela real superficialidade do discurso político, vê-se que é difícil chegar ao eleitor a informação de que existem outros candidatos além dos famigerados supracitados (que, não por acaso, junto com Solange Amaral (DEM-PTC-PMN), lideram as pesquisas). Não sei se Gabeira (PV-PSDB-PPS), Molon (PT) e Chico Alencar (PSOL) têm cacife para representar as classes C e D na eventualidade da eleição, mas, em uma eleição pouco polarizada, cuja militância fará diferença, era de se esperar mais informação sobre os projetos de suas candidaturas ideológicas.

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Agora, talvez por estar realmente à frente nas pesquisas, Jandira Feghali (PCdoB-PTN-PRTB-PHS-PSB) deveria aparecer como prestadora de contas das eleições passadas, quando, nos quatro dias anteriores à votação, conseguiu sofrer uma catastrófica derrota para o agora senador Dornelles (PP). A campanha que associou sua imagem à sua posição sobre o aborto deixou marcas profundas, como o taxista bem lembrou.

Mas a quem cabe informar que sua opinião política não representa mudanças constitucionais? Como prefeita, suas decisões são meramente executivas –não caberá a ela responsabilidade pela descriminalização do aborto, projeto esse de esfera federal e legislativa. Quando candidata a senadora, fez sentido que o argumento depusesse contra ela, sejamos a favor ou contra. Agora, creio que não. Sua equipe poderia estar mais atenta a isso.

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Quanto a Eduardo Paes (PMDB-PTB-PP-PSL), é fato que foi alçado à condição de político por César Maia (que pretende impugnar sua candidatura e para quem vira a cara). No entanto, foi aclamado pela opinião pública somente na época da CPI dos Correios, no escândalo do mensalão, quando ainda era mais um raivoso jovem deputado federal tucano. O que mudou?

Ora, por mais que sua tendência seja de crescimento, Paes esbarra excessivamente em seu fisiologismo. De um lado, seu passado cesarista; de outro, o cabralismo e suas posturas cáusticas de enfrentamento ao tráfico e de apoio às milícias; e, ainda de outro, seu abraço lulista vira-casaca.

No entanto, é sua postura de interlocutor entre as diversas tendências políticas brasileiras que o fazem simpático ao eleitor, em contraste com a falida postura isolacionista dos Maia. Por isso que, se como candidato a prefeito não decolar para o segundo turno, certamente como sucessor de Cabral em 2010 é competitivo. Eduardo Paes é tendência, believe the hype.

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Aliás, se alguém pretende cair em cima do Paes para cultivar a desconfiança do eleitor, é só perguntar sobre suas ambições políticas. Por ser o candidato de Cabral para o estado em 2010 –caso sua ambição à vice-presidência se mostrar viável de fato–, a pergunta que fica é se Paes, quando eleito à Prefeitura, abandonará o projeto Palácio Guanabara. É uma posição bastante delicada, principalmente se concluirmos que o carioca é dado a grandes dinastias.

O abandono de Paes do projeto Palácio Guanabara 2010, entretanto, pode ser jogo para Maia-Pai e Maia-Filho. Dizem as más línguas que Rodrigo Maia já pretende vir candidato ao governo do estado aproveitando a exposição do Maia-Pai candidato ao Senado. Diante desse quadro, não se sabe muito o que esperar de uma eleição com dois candidatos jovens e com o mesmo perfil de eleitorado. Nem Lula subiria gracejando no palanque de Paes, preocupadíssimo com a sucessão. Boa brecha para a volta dos Garotinhos?

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Sintomático especular sobre 2010 às vésperas das eleições de 2008?