Mídia, cultura, política e outros venenos
May 12, 2008 at 10:27 pm

Os blogs e seus políticos

Em campanha, Barack Obama cresceu com o apoio de usuários do MySpace. Do outro lado, Hillary Clinton tem assessores para atualizar várias vezes ao dia seu Twitter. O primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, usa Twitter e Flickr. A ministra de Zapatero, a espanhola Bibiana Aído, tem blog, canal no YouTube, Twitter e Flickr. Política 2.0? Não. Apenas uma nova forma de se aproximar e prestar contas ao eleitorado.

Já em terras tupiniquins, desde as eleições presidenciais 2006, acompanha-se uma crescente mobilização política através de ferramentas de relacionamento, tendo o Orkut, evidentemente, como centro da discussão. Como já apontava Sérgio Amadeu da Silveira no livro de Venício A. de Lima, A mídia nas eleições de 2006, foram os usuários dessa rede social que, se não formularam debates relevantes, desenvolveram instrumentos de opinião marcadamente apaixonados. Foi a partir de seu uso que vídeos de cunho político repercutiram no YouTube –como aquele da entrevista de Alckmin à rede BBC– e que os políticos começaram a levar em consideração a opinião dos ‘e-leitores’ bem como a influência que eles exercem junto à opinião pública.

Passada a festa da democracia, amenizaram-se também os ânimos. Embora muitos políticos mantenham sites onde expõem projetos políticos e agenda de compromissos, são poucos os que permanecem ativos, prestando contas aos seus eleitores e aos interessados em seus projetos. Aos moldes de Bibiana Aído e Gordon Brown, então, temos um verdadeiro vácuo representativo. Dentre os que dei uma fuxicada, somente o blog do Fernando Gabeira, deputado federal pré-candidato à prefeitura do Rio e queridinho da direita (prontofalei) progressista blogosférica, apresenta uma vertente mais propositiva. Ali, o deputado oferece pequenas pílulas opinativas sobre assuntos de interesse público, como uso da internet nas campanhas eleitorais, união civil de homossexuais e proteção ambiental.

Pertinente lembrar que, no entanto, Gabeira compõe a ala oposicionista do Congresso Federal, experiência essa que, se inaugura debates, dificilmente os viabiliza politicamente num curto ou médio prazo.

Outro que ainda está no poder e usa a internet ativamente é o atual prefeito carioca com seu ex-blog. Tenho particular dificuldade em considerar César Maia como um político 2.0, porque newsletters não são exatamente das ferramentas digitais as mais informativas, tampouco se situam no plano das atualidades como projetos inovadores de comunicação. Também duvido que, a essa altura do campeonato, ao fim de um segundo mandato melancólico, César Maia tenha interesse em criar um fórum ativo de debates políticos. Mas a intenção de usar e estar na rede prevalece.

Um exemplo relevante de sub-aproveitamento das ferramentas interativas da internet é o blog do senador Cristovam Buarque. De visualização precária, é usado como uma espécie de clipping do que sai publicado em jornais e revistas, sem espaço para comentários. Suas forças são concentradas em seu site –uma verdadeira fábrica de notícias no formato mais tradicional possível relativas ao seu projeto político.

O que achei mais interessante nessa breve análise, no entanto, é que, entre os desprovidos de mandato, José Dirceu e Roberto Jefferson aparecem como destaques de audiência e repercussão. É no mínimo intrigante perceber que a pouca credibilidade política que restou a ambos autoriza seus discursos e os colocam na crista da onda toda vez que surge um escândalo novo ou um fato político relevante. São muito mais fomentadores de discussões e propositores de projetos políticos do que Gabeiras da vida, o que possivelmente explica a dificuldade que as autoridades têm em se expôr de forma plena na internet. Também mostra que a internet surge como um meio de sobrevivência política dos órfãos da máquina pública, assim como dá idéia de quão articulados politicamente eles permanecem.

Não sei exatamente se algum dia o Planalto delegará a uma equipe a responsabilidade de administrar um site interativo, um blog propositivo ou mesmo um perfil no Twitter. Pouco se sabe até que ponto a exposição de figuras e instituições políticas na internet contribui de fato para o desenvolvimento concreto de projetos políticos. Mas seria bacana saber se as equipes de Comunicação das várias esferas de poder consideram ao menos uma idéia interessante abrir esse espaço de aproximação virtual com os setores conectados da sociedade.

May 6, 2008 at 01:55 am

Um breque no Bric

A bola da vez é a matéria da BBC Brasil sobre a posição dos países que compõem o Bric, grupo de países que envolve Brasil, Rússia, Índia e China, no ranking de controle da propriedade intelectual.

Segundo a matéria (que ironicamente não posso reproduzir aqui por razões de propriedade de conteúdo), a Taylor Wessing, firma de advocacia mundial, quis mostrar, através do ranqueamento das 22 maiores economias mundiais, quais nações melhor fiscalizam o uso da propriedade intelectual. Os Brics ficaram nas últimas colocações: Índia em 19º, Brasil em 20º, Rússia em 21º e (grande novidade) China em 22º.

A matéria mostra que os países analisados “foram classificados de acordo com as leis de cada um para a obtenção, uso e defesa dos três principais tipos de propriedade intelectual - marcas, patentes e copyright”. A empresa aponta a situação dos Brics como preocupante, uma vez que não há marcos regulatórios suficientes que impeçam a circulação de pirataria, embora reconheça o esforço do Brasil nessa… hum… guerra.

Vamos e venhamos: é de se esperar que uma empresa ligada a advogados julgue como preocupante qualquer não cumprimento da convenção estipulada pela OMC (organização na qual, é importante lembrar, a Rússia não está!), jurisdição sob a qual trabalham e fazem dinheiro. É de se esperar que julguem preocupante o crescimento de movimentos que exaltem a produção intelectual colaborativa sob um novo tipo de jurisdição, ou de jurisdição alguma, que tolhem seu trabalho. O que não é de se esperar, no entanto, é que os países do Bric transformem o ranking em uma ameaça às promessas não cumpridas nas conferências de comércio.

Copiar é meio de sobrevivência da informalidade, setor consolidado pelas novas relações de trabalho e especialmente dilatado na Índia, no Brasil, na Rússia e na China. Pequenas empresas, profissionais não-cooperativados e toda sorte de autônomos dependem, de fato, do consumo, do uso, da venda de materiais copiados irregularmente, pois não podem ou não querem esperar leis de incentivo e crédito à compra de licenças. Além disso, sabendo dos prognósticos sobre produção intelectual como moeda de troca nas relações comerciais nos anos vindouros e sobre o desempenho (ainda) medíocre desses países na produção de conhecimento, por que acreditar que há real interesse em combater a cópia, se com livre acesso a ela eles queimam etapas do desenvolvimento tecnológico?

O mercado paralelo da pirataria, mais do que das drogas, mais do que do jogo, estimula a criação de um mercado consumidor que distribui renda e tecnologia àqueles que, se não fosse de outra forma, não seriam protagonistas do “espetáculo do crescimento”. Mais do que isso: esse mercado eleva o consumidor a um outro patamar de necessidades legítimas, retirando-o progressivamente da informalidade ao torná-lo contribuinte do Estado que, aí sim, tem condições e motivos para o fiscalizar. Ou seja, o cidadão pirateador aparece como o elemento fundamental da economia informal, que é, por sua vez, fundamental para a aparição desses países como potências econômicas.

As leis de patentes e de propriedade intelectual estão sabidamente defasadas. Se a bola da vez é o combate aos excessivos subsídios à produção agrícola pelos países ricos, um novo cenário se moldará em anos vindouros para a eliminação gradual de barreiras à tecnologia. É certo que os países ricos não ficarão menos ricos colocando um selo Creative Commons em sua produção intelectual, uma vez que terão tempo, até lá, para encontrar novas formas de se fazerem, como diz o nome, de países ricos.

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Nova edição em 7 de maio:

Entrevista com o sociólogo da Universidade de Columbia e colaborador do livro Freakonomics Sudhir Venkatesh na Época Online também fala sobre como o capitalismo necessita da informalidade e do submundo para sobreviver. Leia aqui.

April 30, 2008 at 06:51 pm

O que é internet?

Meu e-mecenas Bruno Accioly me propôs uma pauta complicada demais para quem tem mais tino de enxergar nuances do que de compreender o óbvio. Ele pede que eu defina o que é internet. Difícil, pois internet se situa para mim como uma representação muito mais social do que tecnológica. Levando em conta meu mau humor para com os entusiastas da tecnologia e meu pessimismo com relação às trilhas para a democratização dos meios digitais evidente desde o primeiro texto deste blog, resolvi mais confundir do que simplificar.

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Muito além de ser apenas uma rede de produção e busca de informação e entretenimento mediada por computadores, a internet é uma rede de informação e entretenimento, por sua vez, mediados por poucas pessoas (cerca de 10% da população do planeta). Desse modo, não é de todo uma ferramenta revolucionária, pois ainda é uma mera reprodução das mídias tradicionais. Ela anda mais como legitimadora das percepções de uma elite usuária entusiasmada com a possibilidade de uma nova marionete digital.

É porque, concordando com Marshall McLuhan, o indivíduo que recebe a tarefa de mediar informação para pessoas comuns torna o meio um elemento conservador de paradigmas. A internet reproduz e legitima, portanto, valores e comportamentos sociais nos quais essas pessoas estão inseridas, distraindo o idiota tecnológico para uma dimensão de liberdade de escolha que é, na verdade, atribuída ao outro. Você me lê por causa da internet, mas eu seleciono as informações do meu texto para te fazer perceber a internet do meu modo.

A internet é um meio de comunicação social, simplesmente. E, se na sociedade apenas dialogamos com iguais, como podemos supor que internet é um agente modificador por excelência?

A internet é um aglutinador de várias semelhanças. Só será plural se pretender tornar algumas pessoas legítimas mediadoras de diferenças.

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